Newsletter, Novembro, November, 2013

Desvelar o local e o global: a importância do Tribunal da Inquisição de Goa.

"O Santo Ofício de Goa (criado em 1560 e extinto em 1812) foi o único tribunal inquisitorial estabelecido em um espaço colonial português. Além desta singularidade, a Inquisição de Goa exerceu virtual autoridade sobre os territórios não contíguos do “Estado da Índia”, isto é, sobre as fortalezas e demais espaços de influência lusa, situados da costa oriental africana até o Extremo Oriente."

by Patrícia de Faria

Rio de Janeiro Federal Rural University

"O Santo Ofício de Goa (criado em 1560 e extinto em 1812) foi o único tribunal inquisitorial estabelecido em um espaço colonial português. Além desta singularidade, a Inquisição de Goa exerceu virtual autoridade sobre os territórios não contíguos do “Estado da Índia”, isto é, sobre as fortalezas e demais espaços de influência lusa, situados da costa oriental africana até o Extremo Oriente. Portanto, tratou-se de “uma Inquisição do mar" (Amiel: 2011), pois atuou em regiões que se comunicavam por vias marítimas, pelas redes exploradas pelos portugueses no Índico e no Pacífico. Logo, a documentação produzida pela Inquisição de Goa é dotada de notável riqueza, por tratar de diferentes geografias e de diversos grupos humanos – que interagiram e se confrontaram na Índia, no Ceilão, na África Oriental, no Oriente Médio, em Macau ou Malaca. Ressalta-se que a Inquisição de Goa foi responsável por intensa atividade repressiva, visto que as suas médias anuais de processados suplantaram as de qualquer tribunal homólogo (Bethencourt:2000). Apesar de sua relevância, a Inquisição de Goa foi pouca investigada, especialmente por causa da destruição de seus milhares de processos. Porém, estudiosos conseguiram localizar alguns processos do tribunal goês dispersos no acervo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Tavares: 2004). As listas de processados e as correspondências (mantidas entre o inquisidor geral e os inquisidores de Goa) conservaram-se em instituições portuguesas e na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. As mencionadas cartas elucidam vários aspectos do funcionamento do tribunal e os desafios para preservar as comunidades católicas, diante da porosidade das fronteiras que separavam os domínios luso-asiáticos das terras controladas por muçulmanos ou “hindus”. A documentação existente estimula o estudo da difusão do catolicismo na Ásia Moderna, ao tangenciar as formas peculiares de apropriação local dos conteúdos da fé católica, a sua interação com crenças preexistentes ou a sua rejeição. Do mesmo modo, os processos remanescentes podem proporcionar informações sobre as trajetórias de vida de suas vítimas e conectá-las a dimensões mais amplas do processo histórico. Um dos exemplos mais elucidativos é o conjunto de informações resultantes da perseguição inquisitorial de comerciantes cristãos-novos (Boyajian:2008), que revelam importantes dados sobre as redes mercantis asiáticas e suas conexões transoceânicas – que vincularam o Oriente Português, a Ásia Hispânica e a América. Em suma, tais exemplos esparsos sugerem como o estudo da Inquisição de Goa pode favorecer a compreensão de dinâmicas históricas locais e globais, estabelecidas em torno dos espaços e dos povos vinculados pela presença portuguesa na Ásia.

 

Referências Bibliográficas

AMIEL, Charles. Goa. In: Prosperi, Tedeschi & Lavenia (Ed.). Dizionario Storico dell’Inquisizione. Pisa: Scuola Normale Superiore, 2010, v. 2, p.716- 718.

BETHENCOURT, F. História das Inquisições. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

BOYAJIAN, J. M. Portuguese trade in Asia under Habsburgs, 1580-1640. Baltimore: John Hopkins University Press, 2008.

GRUZINSKI, Serge. Les mondes mêlés de la monarchie catholique et autres 'connected histories'. Annales: Histoire, Sciences Sociales, 56 (1, jan-fév. 2001), p. 85-117.

TAVARES, Célia C. da Silva. Jesuítas e inquisidores em Goa. Lisboa: Roma Editora, 2004.

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